Desarmamento unilateral e a desigualdade de forças no Brasil

A proposta de desarmamento unilateral no Brasil ignora a atual desigualdade de forças entre a direita e o poder governamental.

A direita, que foi derrotada nas últimas eleições, enfrenta um regime de força que atua de maneira implacável, com o apoio do STF e da máquina pública.

Casos recentes, como o mandado de apreensão do passaporte de Flávio Bolsonaro e a prisão do ex-assessor Filipe Martins, demonstram a perseguição política em curso.

Essa situação gera um dilema ético, pois a reivindicação de paz parece um chamado à rendição para aqueles que já estão em desvantagem.

Apelo à pacificação e seu contexto

O colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, propôs um armistício político após as eleições, sugerindo que é hora de “baixar as armas”. Seu apelo é direcionado à esquerda vitoriosa, à direita derrotada e ao Judiciário. A cena evoca uma ideia de simetria, similar à de um pacifista que conclama tanto o lobo quanto o cordeiro a moderar seus impulsos. Entretanto, a realidade é mais complexa: a direita brasileira não se encontra armada, mas sim marcada por cicatrizes profundas.

A direita opera sob um regime de força controlado por um consórcio entre o governo e o STF, que a persegue implacavelmente. Mais uma derrota eleitoral foi registrada em um ambiente já inclinado, com a máquina pública sendo utilizada para favorecer o candidato oficial. O abuso de poder político e econômico foi escandaloso, além de promessas de benesses distribuídas com ostensividade. Nesse contexto, o pedido de desarmamento unilateral, em que aqueles que são agredidos são chamados a desistir da luta, revela-se como uma tentativa surda de ignorar a disparidade de forças.

A direita desarmada e a juristocracia

O próprio Gadelha notou que, logo após a derrota do senador Flávio Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes emitiu uma ordem para apreender o passaporte de Flávio. Essa ação parece reforçar a lógica de que a direita deve desarmar enquanto o outro lado continua a brandir suas armas. Exatamente no dia em que a proposta de armistício foi apresentada, o ministro Dias Toffoli se recusou a examinar um pedido de liberdade de Filipe Martins. Este, condenado a 21 anos de prisão, é um exemplo claro do desarmamento unilateral imposto à direita: um lado deve renunciar à sua capacidade de se defender enquanto o outro mantém suas armas prontas.

Por isso, o conceito de desarmamento unilateral se revela ainda mais problemático. O lado que já se encontra sem armas é chamado a entregar o que não possui, enquanto o outro continua a concentrar poder e armamento. O adágio latino si vis pacem, para bellum — se você quer paz, prepare-se para a guerra — parece ser ignorado por aqueles que clamam pela paz em um contexto de opressão e desigualdade.