A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu apresentar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma ação contra a Meta por suposta manipulação algorítmica em favor de Flávio Bolsonaro. A iniciativa pede a cassação da chapa presidencial do candidato do PL, segundo a ação eleitoral.
O pedido ocorre após a campanha de Lula acionar o TSE na semana anterior, alegando falhas na entrega de publicações de Lula e aliados. Em 15 de outubro de 2026, uma decisão liminar determinou medidas para que a empresa tratasse os dois candidatos de forma isonômica.
A ação envolve as plataformas Instagram, Facebook e WhatsApp e também cita o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), apoiador de Flávio. Segundo a campanha, os sistemas de recomendação e de inteligência artificial da Meta teriam afetado a exposição dos candidatos.

Os advogados enquadram as alegações como possível abuso do poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social. A ação pede informações sobre os algoritmos da empresa e acesso a mensagens internas para sustentar a apuração.
Ação eleitoral reúne acusações sobre recomendações e alcance
A investigação eleitoral afirma que canais de apoio a Flávio Bolsonaro apareceram em recomendações do WhatsApp quando usuários buscavam o “Exército de Lula”, nome do canal do presidente. Segundo mensagens internas citadas na ação, funcionários da Meta sabiam que a busca também mostrava o canal “Tropa do Flávio”, embora canais de candidatos não devessem ser recomendados.
A peça também aponta que o perfil de Flávio aparecia entre as recomendações de busca do Instagram, enquanto o de Lula não era exibido nem quando o usuário pesquisava o nome exato da conta. De acordo com os diálogos internos mencionados na Aije, funcionários reconheciam que o perfil do senador estava sendo recomendado e que isso não deveria ocorrer.
Outro ponto envolve ferramentas de inteligência artificial: a ação cita ocorrências em que recursos da Meta e o Grok, do X, teriam gerado propaganda relacionada a Flávio e se recusado a criar conteúdo para Lula. Em resposta sobre sua própria ferramenta de IA, a Meta informou que suspendeu temporariamente a geração de imagens de candidatos e adotou bloqueios também para comandos com o primeiro nome e o número eleitoral.
Engajamento, anúncios e episódios apontados pela campanha
Na comparação apresentada pela Aije, o perfil de Flávio tinha 13.606.146 seguidores, 17,2% a menos que os 16.436.220 de Lula, mas registrava média de curtidas e comentários 2,96 vezes maior. A peça informa ainda médias de 15,64 milhões de visualizações nos Reels de Flávio e 5,91 milhões nos de Lula; proporcionalmente à base de seguidores, as taxas de interação seriam de 10,23% e 2,86%, respectivamente.
A campanha também questiona a distribuição dos vídeos de Nikolas Ferreira, deputado federal do PL por Minas Gerais e apoiador de Flávio. O levantamento mencionado na ação atribui dezenas de milhões de visualizações aos vídeos do parlamentar, acima dos números de perfis com mais seguidores, como os de Kylie Jenner, Kim Kardashian, Neymar, Virginia Fonseca e Beyoncé.
Como exemplo da diferença de alcance entre plataformas, a peça cita um mesmo vídeo de Nikolas que teve 396,4 mil visualizações no TikTok e 56,1 milhões no Instagram. A ação relaciona esse caso à hipótese de amplificação algorítmica atípica do perfil do deputado, sem apresentar essa interpretação como uma conclusão já reconhecida pela Justiça.
Outro episódio diz respeito à conta oficial de Lula, que, em 9 de outubro, ficou sem conseguir impulsionar publicações do feed no Instagram por quase 24 horas. A Meta inicialmente atribuiu o problema a uma falha técnica global, mas mensagens internas citadas em reportagem indicariam que uma interrupção mundial havia ocorrido em 7 de outubro e durado cinco horas; funcionários também teriam descrito a conta de Lula como “limitada” em comparação à de Flávio.
Decisões do TSE, resposta da Meta e pedidos de informação
Em 13 de outubro, uma publicação do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, contra Lula foi impulsionada com recursos da entidade e alcançou mais de 1 milhão de usuários do Facebook e do Instagram, segundo a ação. A legislação eleitoral citada na peça permite que partidos, coligações e candidatos paguem por impulsionamento de propaganda, mas veda o impulsionamento de conteúdo eleitoral negativo.
Após a decisão liminar de 15 de outubro, que determinou tratamento isonômico entre os candidatos e correções nas contas de anúncio de Lula, o ministro Marco Bellizze estabeleceu multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento. Em nova decisão, expedida na noite de 18 de outubro, o ministro deu à Meta 24 horas para comprovar o cumprimento das exigências e indicou que a multa diária subiria para R$ 1 milhão se a empresa não atendesse à determinação.
Procurada em 16 de outubro, a Meta negou que estivesse interferindo na eleição ou favorecendo Flávio. A empresa afirmou que os episódios relatados tiveram causas distintas, que alguns problemas atingiram contas e anunciantes em diferentes países e que seus sistemas não são projetados para dar tratamento preferencial a candidatos, partidos ou posições políticas.
Luiz Eduardo Peccinin, advogado que assina a Aije, declarou que a opacidade dos algoritmos não pode determinar quem será ouvido ou silenciado numa eleição. Maíra Recchia, outra autora da ação, defendeu apuração e transparência diante dos indícios apresentados; a campanha pede informações sobre o funcionamento dos algoritmos da Meta e acesso a mensagens internas da empresa para fundamentar a ação contra a Meta.

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