Em artigo publicado em 19 de outubro de 2026, o jornalista e teólogo Marlon Reguelin argumenta que a trajetória de Lula ilustra a mobilidade social possibilitada pelo capitalismo. O texto relaciona a ascensão do presidente à economia de mercado e à liberdade política.
A análise parte da história de Lula, retirante nordestino que se tornou operário metalúrgico e líder sindical. Reguelin contrapõe essa trajetória à crítica do petista ao sistema econômico que, segundo o autor, criou condições para sua projeção pública.
O artigo aborda a formação de Lula no ABC paulista e sua chegada à Presidência da República, além de examinar decisões políticas e econômicas de seus mandatos. Também retoma a campanha presidencial de 2002 e a aproximação com aliados de perfil liberal.

Reguelin amplia o argumento para discutir as ideias associadas à direita e à esquerda, incluindo a relação entre mercado, liberdade e valores conservadores. A interpretação é apresentada como uma leitura do autor sobre a biografia e a atuação política de Lula.
A trajetória de Lula como argumento sobre o capitalismo
Para Marlon Reguelin, a ascensão de Lula serve como exemplo de mobilidade social numa sociedade que permitiu a um trabalhador chegar à Presidência pelo voto. O autor ressalva que esse percurso não foi livre de obstáculos: durante a ditadura militar, Lula foi preso e condenado a três anos e meio de prisão, mas o processo prescreveu.
Reguelin contrapõe a atuação do Estado, que prendeu o sindicalista, às condições de trabalho e organização oferecidas pela economia de mercado. Em sua leitura, a redemocratização e as eleições também foram decisivas para que Lula chegasse ao poder sem liderar uma revolução armada.
O articulista relaciona Lula e o capitalismo ainda à crítica marxista do determinismo de classe. A trajetória do presidente, que passou de filho de retirantes pobres a liderança nacional, é apresentada como contestação à ideia de que as estruturas sociais definem por completo o destino de cada indivíduo.
Reguelin propõe um exercício contrafactual ao imaginar Lula nascido em Cuba, sob o governo de Fidel Castro. Segundo o autor, naquele contexto seria improvável que ele se tornasse líder sindical independente, tanto pela falta de um parque de grandes montadoras quanto pelo controle estatal dos sindicatos.
O texto estende a comparação à União Soviética e à Venezuela chavista. Na avaliação de Reguelin, um sindicalista como Lula poderia ter sido incorporado à estrutura partidária soviética ou, no caso venezuelano, convertido em agitador subordinado ao bolivarianismo.
Já no Brasil industrial do século 20, o ABC paulista reunia fábricas e empregos ligados à Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz e Scania. O autor argumenta que esse parque industrial criou as condições para que um torneiro mecânico se organizasse com outros trabalhadores e ganhasse projeção pública.
Na interpretação de Reguelin, o novo sindicalismo também se apoiou numa classe operária formada pela prosperidade industrial, com estabilidade e recursos para sustentar a organização dos trabalhadores. Ele associa esse processo à tese de Ludwig von Mises, em Ação Humana, de que o capitalismo pode produzir riqueza inclusive para quem se opõe a ele.
A campanha de 2002 e o pragmatismo econômico nos governos Lula
Na campanha de 2002, Lula assinou a Carta ao Povo Brasileiro, que, segundo Reguelin, sinalizou compromisso com os contratos, as obrigações do país e a manutenção do superávit primário. O documento também registrava a defesa do controle da inflação, apresentada pelo articulista como um recuo em relação à retórica econômica mais ideológica da esquerda.
A composição da chapa reforçou essa aproximação: o vice, José Alencar, era empresário do setor têxtil, dono da Coteminas e filiado ao Partido Liberal naquele ano. Reguelin o descreve como defensor de impostos menores e da abertura de mercado e afirma que sua presença ajudou a reduzir a resistência a Lula.
Para o Banco Central, Lula escolheu Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do BankBoston e eleito deputado pelo PSDB em 2002; Meirelles permaneceu no cargo durante os dois mandatos presidenciais do petista. O primeiro ano de governo terminou com superávit primário de 4,32% do Produto Interno Bruto, dado que Reguelin usa para ilustrar o pragmatismo econômico daquele período.
O articulista contrapõe essas decisões ao lulopetismo que classifica como intervencionista e estatizante, associado a ideias bolivarianas, e atribui a essa orientação danos econômicos e institucionais posteriores. Ele também cita a declaração patrimonial apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral em 2026: o candidato declarou R$ 4,78 milhões, dos quais cerca de 69% estavam distribuídos em dois planos de previdência privada.
A formação conservadora e as contradições do lulismo
Reguelin descreve a formação de Lula como marcada por valores que associa ao conservadorismo: família, trabalho, religiosidade popular, disciplina comunitária e esforço individual. O autor afirma que esse repertório teria mais afinidade com o trabalhador conservador médio do que com setores progressistas universitários que hoje influenciam discursos da esquerda.
Para sustentar essa leitura, o articulista recorre ao pensador conservador Russell Kirk e à ideia de que a ordem social se forma por meio de virtudes cultivadas em famílias, comunidades e tradições cotidianas. Ele aproxima essa concepção da origem de Lula, ligada a mães sacrificadas, trabalhadores exaustos e práticas de fé popular.
Na avaliação de Reguelin, a contradição do lulismo está em denunciar um sistema que, em sua interpretação, proporcionou a Lula espaço para construir influência política e alcançar a Presidência. O autor reconhece que o capitalismo é imperfeito e injusto em vários aspectos, mas argumenta que a liberdade política brasileira permitiu a ascensão do petista sem uma revolução armada ou a destruição das instituições durante esse percurso.

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